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Xamanismo

9 de Julho de 2014, 6:34 , por Patrícia Conceição da Silva - | Ninguém está seguindo este artigo ainda.
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Traduções

Xamã: Guardião da Tradição

Noite de lua cheia, um grupo de mulheres em uma comunidade eco-espiritual na região metropolitana de Salvador/Ba se reúne em torno de uma fogueira para entoar cânticos sagrados, contar histórias, tocar tambor, dançar... Em um consultório terapêutico, em plena cidade de São Paulo, uma mulher toca tambor enquanto pessoas deitadas, de olhos fechados, parecem viver um estado de transe em busca de imagens que surgem do fundo de suas mentes... Em uma floresta, num território indígena norte-americano, um grupo de profissionais das mais variadas áreas chegam de lugares distantes para participar de um antigo ritual de purificação: a “sauna sagrada” ou “tenda do suor”... Em terras montanhosas do norte da Itália, uma Xamã sul-americana caminha em silêncio com um grupo na direção de uma grande cachoeira para a realização de um trabalho meditativo com os elementos da Natureza...

Um Xamã, no dia do equinócio de primavera, em um sítio arqueológico da tradição andina, oferece uma bebida preparada com uma erva sagrada local a um grupo de “estrangeiros”, revivendo um antigo ritual de busca da visão e cura... Com nuâncias próprias e das mais variadas formas, essas ações se repetem em muitos outros lugares do Brasil e do mundo.

De onde surgem? O que as motivam? Alguns pontos em comum parecem ligar essas pessoas entre si: quase todas elas, saídas de contextos urbano-modernos que priorizam uma busca desenfreada pela riqueza e conforto materiais, e cansadas do modelo de sociedade em que vivem, procuram algum tipo de re-conexão com a mãe Natureza e consigo mesmas.

Buscando (um novo) sentido para suas vidas cotidianas, elas tentam encontrar saídas pessoais e coletivas para as inúmeras crises que vivenciamos hoje – ecológica, econômica, social, de valores, entre muitas outras – as quais, em muitos aspectos, têm se tornado uma crise da própria humanidade, acelerando uma perda de qualidade de (a) vida sobre o planeta. Nesse sentido, tentando fazer o “caminho de volta”, parece existir no mundo contemporâneo um movimento de resgate de algumas antigas tradições, em que a base são as marcas mítico-mágico-religiosas deixadas pelos povos antigos em suas tentativas de compreender a intricada rede que liga o ser humano à Natureza e ao Universo.

O toque do tambor, os cânticos, as histórias e danças em torno da fogueira, os transes místicos, a cabana da purificação, o uso das ervas de poder, a meditação junto à Natureza, tudo isso fala de uma espiritualidade primal, originária, voltada prioritariamente para a Natureza, na qual o ser humano é visto como elemento indissociável de tudo mais à sua volta. Este fenômeno espiritual acompanha a humanidade desde os primórdios, desde os tempos pré-históricos, e, tendo emergido prioritariamente em sociedades caçadora-coletoras, tem servido como base para o desenvolvimento da espiritualidade humana. Nele, o ser humano, em especial o iniciado ou Xamã, tanto possui o papel de intermediador entre as forças imanentes e transcendentes do Cosmos, como busca integrar todas as potencialidades humanas para guiar as pessoas tento em tempos adversos, como em momentos de paz. Assim, o Xamanismo, compreendido aqui como um fenômeno (e não como um sistema) religioso, tendo resistido a todos os tipos de cataclismos naturais e sociais, chega hoje em ambientes tecnicistas-racionlistas da modernidade. Durante todo esse processo, principalmente em tempos de crises, ele tem sido chamado a apontar novas possibilidades, a partir da vivência de um olhar intuitivo e espiritual, bem como através de uma compreensão prática das leis e relações visíveis e invisíveis que regem o Universo. O olhar do Xamã é o olhar interior.

Foi tentando compreender os limites colocados pela crise atual, a partir desse olhar, que há pouco “defendi” minha dissertação para obtenção de grau de mestre, intitulada “Limites da Modernidade – a Atualidade do Saber/Fazer Tradicional”, sob a orientação do Prof. Roberto Bartholo. No entanto, esse processo começou em 1988, quando pela primeira vez me matriculei no Programa de Pós -graduação em Engenharia de Produção da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Por razões diversas, não consegui fazer minha dissertação naquela época. Dois anos depois conheci o Xamanismo; algo me dizia que havia encontrado o que estava buscando. Em 1996, retomei o mestrado, fazendo uma pesquisa sobre o Xamanismo tendo como base estudos da antropologia filosófica, da etnografia, da história das religiões, mitologia, além de depoimentos pessoais, escritos diversos sobre os povos nativos e minhas próprias vivências.


Depois de quatro anos o esperado dia da apresentação mais do que uma “defesa” foi uma celebração. Estava preparado. Em uma meditação visualizei um conselho de Xamãs, no qual eu também me encontrava. Eles estariam comigo no momento, assim como a “tribo” da Fundação Terra Mirim, que havia dedicado a meditação matinal ao meu trabalho. Falei quase que por quatro horas sem parar. Na primeira hora, todo o sistema elétrico e telefônico do lugar caiu, interrompendo a apresentação que fazia com transparências; tive que contar exclusivamente com a fala como recurso didático. Mas, havia algo mais... as janelas abertas deixavam a natureza do lugar entrar na sala através do vento e da visão das árvores dos jardins. As pessoas permaneciam atentas todo o tempo, como se estivéssemos vivendo ali, naquele longo período de tempo cronológico, um outro tempo – o tempo mítico a que eu me referia constantemente ao falar do Xamã. Nas palavras dos membros da banca, junto às vozes dos doutores da ciência, ouvia-se também o reconhecimento da possibilidade da Academia tratar temas dessa natureza com todo o rigor científico necessário, mas também com uma escuta silenciosa às dimensões da vida que não podem ser apenas traduzidas em palavras e fórmulas do pensamento. Este fato ficou visível quando um dos membros da banca, o mais graduado , pediu para que o tambor que eu havia trazido como demonstração fosse tocado. E assim fiz. A sala calou-se para ouvir o tambor... aquele momento, certamente, foi quando os Xamãs mais puderam ser escutados.


Senti que ali, dentro dos muros da universidade, um ritual antigo acontecia em um outro plano; os cânticos ecoavam... A fala do Xamã diz nas brechas das palavras, porque fala a voz dos espíritos e seres da Natureza.

O Chamado Xamânico

A tese que escrevi tentou compreender a força do renacimento do Xamanismo hoje. Minha inquietude era como pensar o ancestral nos dias atuais, já que os ambientes tradicionais onde a experiência Xamânica nasceu estão sendo estrangulados pelas sociedades modernas. No entanto, atualmente, percebe-se um movimento mundial de resgate dessa tradição, a partir de grupos espiritualistas e acadêmicos, instituições e estudiosos situados em ambientes urbanos. Assim é que, na contemporaneidade, o Xamã ainda permanece. Porém, fora de seus contextos tribais tradicionais, sua aldeia hoje estende-se por todo o mundo... Com a força de viver o sagrado de uma forma direta, o Xamã, ainda hoje, é chamado a “guardar” a Terra e a humanidade.


Como compreende-lo, então? Penso que seja necessário perceber a teia simbólica que se coloca entre o mundo da cultura humana, a Natureza e as realidades divinas para se entender a figura do Xamã. Como também, antes de tudo, visualizar essas realidades como sagradas. O Xamã está assentado no Mistério, se situa no centro. Além de sua própria existência concreta (biológica, social), podemos vê-lo também enquanto arquétipo. E, como arquétipo, ele surge em tempos míticos para proteger a humanidade em momentos de caos ou para despertá-la de uma letargia, ou da falta de visão, e para trazer a cura. Em um mito da tradição do povo buryat, da Sibéria, o primeiro Xamã teria surgido para salvar a humanidade que vivia sob o domínio dos deuses do oeste que lhe lançavam doenças e toda espécie de sortilégios. Penalizados com a humanidade, os deuses do leste resolveram enviar um Xamã para poder livrá-la dos males. Uma águia foi enviada, mas como a humanidade não entendia sua linguagem, a ignorou. Numa segunda tentativa, ela retornou e tendo encontrado com uma mulher que dormia debaixo de uma árvore, teve relações sexuais com ela, nascendo em seguida uma criança que se tornou o primeiro Xamã aquele que seria capaz de se comunicar com reinos espirituais diretamente podendo, assim, curar e profetizar. Em uma outra versão do mito, a própria mulher se tornou a Xamã. O Xamã, então, é aquele que nasceu na Origem e traz as dimensões do cosmos para a realidade objetiva.


Nas culturas tradicionais, ele surge em contextos especiais: obedece a um chamado originário, uma inspiração de ordem transcendental; não escolhe, é escolhido pelos deuses, antepassados ou espíritos. Mais do que (ou antes de) representar uma vontade pessoal, o Xamã está ligado a um compromisso coletivo com uma realidade espiritual e, uma vez reconhecidos os sinais de sua escolha, ele é encaminhado, através dos Xamãs mais velhos, a um processo de aprendizagem que normalmente é longo e exaustivo. Através dos mitos, ritos e símbolos de sua cultura ele é iniciado na arte e na sabedoria e na sabedoria de seu novo ofício. E, a despeito das diversas formas (muitas vezes dolorosas) de iniciação que deverão ocorrer e tudo que viverá nessa jornada, ele sabe, ou pelo menos é socialmente acordado, que deve aceitar o chamado. Eis a repreensão dada por um Xamã mais velho, Trovão Retumbante, à dúvida do aprendiz Médico Urso-Pardo do Lago em seguir o caminho de Curador nativo:


“Não se trata de uma escolha sua. Você não tem o direito nem a autoridade para interferir nos desígnios do Curador. Foi escolhido para se tornar um Curandeiro muito antes de encarnar nessa Terra. É seu dever e responsabilidade atender ao chamado.”

Na maioria das culturas, o reconhecimento de um futuro Xamã se dá em função de sua capacidade de estar em contato imediato e permanente com as realidades espirituais. Mas não há uma forma única – cada tradição mantém sua especificidades técnicas e simbólicas. Além do mais, existem muitos sinais que podem identificar a presença de um possível novo aprendiz: ser acometido por uma forte enfermidade, sonhos de revelação, acidentes inesperados, etc. Depois daí vem o processo de aprendizagem. O propósito, no entanto, permanece inalterado: o Xamã deve ser sempre o agente e guardião dos mistérios de seu povo, ele deve estar pronto ao chamado dos espíritos, e disponível para servir como curador, profeta, mestre do êxtase espiritual, guardador dos mitos e lendas, entre tantas outras funções que lhe competem.


A iniciação do Xamã – sistemática, rigorosa, acontece para que ele possa dominar com precisão todos os ritos, instrumentos, técnicas e símbolos que utilizara em sua tarefa, e principalmente, para que possa ter o completo domínio sobre si mesmo – através de uma firme resistência corporal e de uma consciência sempre aberta. A iniciação Xamânica é sempre pessoal e intransferível. Dessa forma, o aspecto da reclusão é fundamental. Ele precisa ter paciência; o obediência e a disciplina são fundamentais nesse processo. É nesse estágio que o iniciante vivencia o transe extático e adquire habilidades como saber entoar cânticos sagrados, manipular ervas de poder ou curativas, realizar rituais. Aqui está um ponto fundamental que diferencia a iniciação Xamanica das aquisições e preparações profissionais que ocorrem em nossa sociedade: toda ela ocorre em seu universo interno, com o total envolvimento do aprendiz naquilo que a ele é ensinado, sem nenhuma distância entre sujeito e objeto e com total aproximação entre mestre e aprendiz. Ademais, ao contrário da busca de previsibilidade e controle científicos, o Xamã estará sempre lidando com o inesperado. O inconstante será quase que uma regra em sua vida. Ipokarã, um índio da nação Suruí, das regiões amazônicas, diz: “tornar-se Pajé è muito difícil – não è qualquer um que tem coragem.”


O estar atento aos presságios é parte corriqueira de seu oficio. Nesse sentido, sua atenção recai sobre uma leitura minuciosa e necessária dos muitos prenúncios e manifestações deixados pelo “acaso”, em suas dimensões visível e invisível. Usando um jargão comum, porém correto – a realidade é um livro aberto, imenso e sedutor, e um dos portais de entrada para a iniciação do Xamã é aprender a decodificá-lo, reconhecer os seus mistérios e saber tomar as decisões certas.


O Xamã é sempre um curador que se curou, ou que, convivendo naturalmente com sua patologia, muitas vezes incorpora-a como parte inseparável de seu ofício. Portanto, antes de se colocar disponível para resolver as doenças e questões externas tem que encontrar o próprio significado de sua dor ou distúrbio – ele precisa beber de seu próprio veneno até a última gota para ministrar remédios a outrem. Esta é uma tarefa ampla e ambivalente, pois que ele se encontra sempre no limiar, “por um fio”: precisa morrer para renascer. Nesse processo, ele tanto pode entrar em contato com o mais belo dos céus, quanto com o mais obscuro dos infernos. Um Xamã do Pueblo San Juan nos diz:


“O que estou tentando falar é difícil de dizer e difícil de entender... a não ser que você mesmo já tenha estado no Grande Desfiladeiro e retornou de lá sem dano. Tudo depende de algo dentro de você mesmo – se você está se aventurando para a morte ou se procura a vida.”


O papel do Xamã – viajante entre mundos, mestre das dimensões - hoje, se renova. Seguindo uma inspiração divina, sua presença entre nós aponta a possiblididade de integração entre realidades que a princípio se colocam afastadas. Seu olhar, como uma águia, vê multidimensianalmente e, assim sendo, olha os pontos de desequilíbrio nos seres humanos e nas sociedades. Mas o Xamã muitas vezes sabe que não lho compete uma cura específica. Alguns doentes têm que viver seu processo ao limite em função do regate de alguma coisa que só a eles pode ser revelada pela própria experiência da enfermidade.


Ao escrever uma tese sobre este tema busquei pontes e formas de diálogos. Primeiramente, como aprendiz, dentro de mim mesmo; depois busquei elos de ligação entre a força da ancestralidade humana e os tempos modernos. Compreender os limites, para neles saber voar.

1 In LAGO, 1995, pg 28.
2 In HALLIFAX, 1994,p.10.

Por Severiano Joseh*

*Professor do Centro Federal de Educação Tecnológica (CEFET/BA), membro da Fundação Terra Mirim.

 

Referências Bibliográficas:

A Bibliografia sobre o Xamanismo é ampla e diversificada, eis aqui algumas sugestões.

  • ALMEIDA, Alba Maria. A Voz dos Quatro Elementos: Histórias de uma Xamã. Salvador: Madras Editora 2000.
  • ELIADE, Mircea. Shamanism. Archaic Technics of Ecstasy. 2nd Ed. Princeton, N.J.: Bollingen Series 76/ Princeton University Press, 1974. Este livro foi publicado em português pela Ed. Martins Fontes em 1999.
  • HALLIFAX, Joan. The wounded Healer. 2nd Edition. New York: Thames and Hudson, 1994.
  • HARNER, Michel. O Caminho do Xamã. Sçao Paulo: Editora Cultrix, 1989.
  • LAGO, Médico Urso-Pardo do. O /curandeiro Nativo. (Coleção “Nova Era”). Rio de Janeiro: Editora Record, 1995.
  • REVISTA XAMÃ. Artigos e Entrevistas. Salvador: Fundação Terra Mirim, 1995-2000,(01-11).
  • SURUÍ, Narradores e MINDLIN, Betty. Vozes da Origem. São Paulo: Editora Ática/IAMÁ, 1996.
  • WALSH, Roger N. O Espírito do Xamanismo – Uma Visão Contemporânea desta Tradição Milenar. São Paulo: Editora Saraiva, 1993.